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9 de setembro, 2026 Carregando clima...
Políticas Públicas

Fiocruz e Ufopa firmam parceria para fortalecer ciência na Amazônia

Expedição em Santarém (PA) contou com participação de representantes do Ministério da Saúde e coordenadores de unidades da Fiocruz

Expedição em Santarém-PA contou com representantes do Ministério da Saúde e pesquisadores (foto: Junior Albuquerque/projeto Saúde e Alegria)

A Fiocruz e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) formalizaram um protocolo de intenções que estabelece as bases para uma cooperação técnica que une esforços para o avanço da ciência e da tecnologia na região amazônica. A iniciativa é um dos principais resultados da missão institucional da Fiocruz, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria (PSA), no Baixo Tapajós (Pará). Entre 24 e 27 de agosto, a expedição reuniu gestores, dirigentes e pesquisadores para conhecer os impactos das mudanças climáticas e soluções construídas por comunidades ribeirinhas e povos tradicionais. Representantes do Ministério da Saúde (MS) participaram da agenda, que contribui para as discussões do MS sobre Saúde Fluvial e Ribeirinha e para o desenvolvimento de estratégias de adaptação do Sistema Único de Saúde (SUS) às mudanças climáticas.

A assinatura do protocolo marca a continuidade de uma relação de parceria entre a Fiocruz e a Ufopa que remonta décadas de trabalho conjunto na Amazônia, com foco em pesquisa, formação, inovação e fortalecimento das capacidades técnicas já existentes no território. O objetivo agora é facilitar a troca de experiências entre professores, pesquisadores e estudantes a partir do amplo acesso a infraestruturas laboratoriais e a bases de dados.

Nosso desafio imediato é organizar um plano de trabalho, por meio de seminários e oficinas, para definirmos prioridades e garantir a sustentabilidade dessa colaboração,

afirmou o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destacando a importância de uma atuação estratégica e integrada na localidade. “Estou muito confiante de que essa cooperação, unindo a expertise da Fiocruz à capacidade da Ufopa, será extremamente profícua”. 

Articulada pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), a missão no Baixo Tapajós reuniu representantes da Fundação, do Ministério da Saúde (MS) e da Fundação Banco do Brasil, em parceria com o PSA, organização da sociedade civil com quatro décadas de atuação na região. A agenda da comitiva da expedição contou com diversas paradas em Santarém (Pará). Foram cinco dias acompanhando o dia a dia de comunidades tradicionais e ribeirinhas do Rio Arapiuns, com visita a centros de pesquisa, além de cooperativas de bioeconomia. A escuta das comunidades foi um dos pontos centrais da expedição.

Ouvir quem vive no território é fundamental para compreender os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde. Eles têm uma consciência ecológica muito grande, conhecem como ninguém o curso das águas, dos rios e como a questão climática afeta a vida dos animais. Precisamos estar cada vez mais próximos dessas comunidades,

afirmou o diretor do Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa (DGOP), vinculado à Secretaria-Executiva (SE) do MS, André Bonifácio Carvalho. 

O roteiro começou no Ecocentro de Sociobioeconomia da Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativistas do Oeste do Pará (Acosper), empreendimento que superou anos de dificuldade para se consolidar, atualmente, como uma rede de 139 comunidades cooperadas em cadeias de mel, castanha e sementes nativas. Na sequência, o grupo visitou a Unidade Básica de Saúde (UBSF) Fluvial Abaré II, que leva atendimento a 43 comunidades ribeirinhas ao longo do ano, e o Centro Integrado de Saúde e Clima de Santarém (Cisc), unidade recém-criada pela Secretaria Municipal de Saúde para o desenvolvimento de protocolos locais de resposta a eventos climáticos extremos, como ondas de calor.

Entre os projetos que já colocam essa cooperação em prática está a FioAres, uma rede de cinco estações de monitoramento de poluição atmosférica e variáveis meteorológicas instaladas na região, com equipamento operado localmente por pesquisadores da Ufopa e coordenação da Fiocruz. Os dados gerados pelo FioAres alimentam, entre outras aplicações, o desenvolvimento de protocolos de resposta a episódios críticos de poluição atmosférica no âmbito do Centro Integrado de Saúde e Clima de Santarém, e já permitiram identificar de forma antecipada o deslocamento de fumaça de queimadas em direção a Manaus, um exemplo concreto de como o monitoramento ambiental pode subsidiar respostas de saúde pública.

Conhecimento que se aprende no território

O primeiro dia da missão (24/8) foi de apresentações institucionais e o segundo (25/8) dedicado às comunidades no Rio Arapiuns, em uma demonstração prática de tecnologias sociais já em funcionamento na região. Em Carão, o grupo de piscicultura Mulheres Unidas Sonhadoras da Amazônia (MUSAs) apresentou como a criação de peixes em tanques-rede sustenta a segurança alimentar da comunidade e como o regime de cheias do rio, afetado pela variabilidade climática, altera diretamente a disponibilidade de alimento na região.

Em Anã, a comitiva conheceu o modelo da UBS da Floresta, unidade de saúde mantida por energia solar que resistiu a um teste de sobrecarga elétrica durante um mutirão de atendimento especializado que reuniu 18 profissionais de saúde simultaneamente, entre eles cardiologista, ginecologista e dentista, sem que o sistema falhasse. A comunidade também apresentou seu sistema de reciclagem de resíduos sólidos, batizado de Espaço Motirô, e a Cooperativa Turiarte, que reúne doze comunidades em torno do turismo de base comunitária e do artesanato em palha de tucumã.

Já no Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), em Anumã, pesquisadores e gestores participaram de uma oficina voltada a sistematizar tecnologias sociais de acesso à água, como cisternas comunitárias, usadas por comunidades da região.

Escuta com lideranças do território

A missão também reservou espaço para a escuta direta. Na sede do PSA em Santarém, lideranças indígenas, ribeirinhas e de movimentos sociais do Baixo Tapajós apresentaram à comitiva institucional um conjunto de demandas do território: comunidades com UBSF Indígenas (previstas há três anos e ainda não construídas); resolução para casos de sequelas por falta de soro antiofídico; pedidos de resposta mais rápida sobre contaminação por mercúrio; e uma solução para a situação do Lixão de Perema, em Santarém, alvo de denúncias de catadores sobre descarte irregular de resíduos. O participantes relataram ações em desenvolvimento relacionadas a algumas dessas pautas, como um plano de trabalho voltado à contaminação por mercúrio, conduzido pelo MS, e reforçaram que a efetivação das demandas do território depende também de sua previsão formal no Plano Municipal de Saúde de Santarém, cuja revisão foi pautada junto às lideranças.

As populações do campo, da floresta e das águas seguem historicamente sub-representadas nas políticas públicas de saúde do país, um ponto reconhecido pela própria comitiva ao final da escuta. Foi expressado pelo grupo o compromisso de contribuir para que essas pautas territoriais avancem nos planos municipal e estadual de saúde.

Fonte: Agência Fiocruz

Jose Gadelha

Diretor Editorial do ConectAmazônia. Graduado em Jornalismo (União das Escolas Superiores de Rondônia - UNIRON), doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto no curso de Jornalismo (UNIR). Assessor de imprensa na Fiocruz Rondônia e membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).