Contar histórias é, em sua essência, um ato de cuidado. Quem escolhe o jornalismo e a comunicação, especialmente no campo socioambiental, faz isso por acreditar que a informação pode proteger rios, florestas e, acima de tudo, pessoas. Mas e quando quem comunica se torna o alvo?
Falar sobre liberdade de expressão e a segurança de jornalistas na Amazônia é tocar em uma ferida que insiste em não fechar. É impossível não lembrar de Dom Phillips e Bruno Pereira, assassinados em junho de 2022.

Essa tragédia no Vale do Javari é o lembrete mais duro e extremo de que relatar os conflitos da nossa terra pode, literalmente, custar a vida.
Infelizmente, a insegurança não mora apenas nos extremos. Ela habita o nosso dia a dia, muitas vezes silenciando vozes fundamentais de maneira preventiva. Uma reportagem da Agência Pública desse mês de setembro de 2026 revelou, por exemplo, que o Tapajós de Fato, um importante site independente do Oeste do Pará, simplesmente deixou de cobrir as eleições locais deste ano por um motivo brutal e direto: o medo de morrer, após uma série de ameaças de violência direcionadas à equipe.

Esse medo ganha novas formas e escalas no ambiente digital. Dados da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), publicados também nesse mês de setembro de 2026, mostraram que os ataques online à imprensa cresceram assustadores 67,3% apenas na segunda quinzena da campanha eleitoral. É uma violência que muitas vezes parece invisível para quem lê as notícias, mas que adoece e intimida quem está na linha de frente da apuração.
Às vezes, porém, a violência é física, estrutural e escancarada. Vimos isso acontecer no Festival de Parintins no final de junho de 2026.

O jornalista Marcelo Rocha estava lá, trabalhando credenciado na cobertura oficial do evento, quando sofreu injúria racial e agressão. Após levar um tapa no rosto de uma mulher e ser chamado de “vagabundo” e “neguinho”, ele ainda foi derrubado por integrantes da segurança privada e retirado do local à força, carregado. Uma cena covarde que escancara a vulnerabilidade extrema do profissional ali presente apenas para exercer sua função.
Veja publicação de Marcelo no Instagram.
E as pressões não vêm apenas de quem quer ocultar uma notícia. Dentro das próprias redações ou na busca diária pelo sustento, enfrentamos lutas dolorosas e silenciosas. Uma pesquisa da Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro) com o apoio da FENAJ apresentada também no último dia 14/09, apontou como o assédio moral e a sobrecarga de trabalho ameaçam diretamente a saúde mental dos jornalistas, tolerando pressões absurdas pela simples, mas implacável, necessidade de sobreviver financeiramente.
Para o jornalismo independente, que tantas vezes é a única voz de territórios esquecidos, a asfixia também é econômica e algorítmica. Um exemplo triste que vem ocorrendo ao longo desse ano é o da Amazônia Real, agência de referência absoluta na região, que está com campanhas emergenciais de financiamento no Catarse ao se ver sem recursos para continuar suas operações.

Tudo isso acontece enquanto, como alertou a FENAJ no último mês de junho, plataformas digitais aplicam censuras invisíveis que limitam o alcance de veículos não comerciais.
Diante de um cenário tão sufocante, para onde corremos? É aqui que compartilho uma reflexão que talvez doa em muitos de nós: a solidão institucional. É profundamente desanimador olhar para entidades que deveriam ser nosso escudo, como os sindicatos da categoria e a própria FENAJ, e encontrar, na esmagadora maioria das vezes, apenas “notas de repúdio”.
O repúdio público tem o seu lugar, mas ele não paga honorários de advogado criminalista, não oferece amparo psicológico depois de um ataque, nem resguarda o jornalista ameaçado. Falta assistência real, pragmática e humana.
O sistema é, na sua essência, cruel com quem comunica. Ao contrário de categorias historicamente fortalecidas e blindadas por suas instituições de classe, como a medicina ou o direito, o jornalismo, especialmente na Amazônia, opera na margem, quase sem rede de proteção. E precisamos ter a honestidade de admitir que não há saída mágica ou simples para isso.
E cobrar que nós mesmos, já exaustos, encontremos formas de nos proteger sozinhos não basta. A mudança real só virá quando a sociedade, o Estado e as instituições que dizem nos representar entenderem que a integridade física e mental do comunicador é o alicerce básico da democracia, e não um dano colateral aceitável da profissão.
Aos meus colegas, o que posso oferecer hoje não é a falsa promessa de que tudo vai se resolver logo. Mas deixo aqui o reconhecimento da nossa dor, do nosso cansaço e da nossa inegável coragem. Que possamos, no meio desse cenário árido, não exigir tanta força de nós mesmos o tempo todo.
Se o sistema ainda nos nega o cuidado estrutural, que saibamos pelo menos validar o esgotamento uns dos outros, oferecendo escuta e honrando a vida de todos nós que dedicamos os dias a documentar e defender a nossa Amazônia.
No fim das contas, a urgência de denunciar as queimadas criminosas na floresta ou a seca dos rios esbarra em uma necessidade anterior a tudo isso: o nosso direito de existir e trabalhar sem medo.
A Amazônia é vasta, complexa e o mundo inteiro cobra que suas histórias sejam contadas. Porém, a dura verdade é que não haverá quem defenda o território se os responsáveis por narrá-lo continuarem adoecendo ou caindo pelo caminho, seja pela violência, pela exaustão ou pelo mais absoluto abandono institucional.
Neste texto, atenho-me a esses episódios de violência, sem nem mencionar a questão de direitos básicos trabalhistas. Isso é assunto para outro texto!
Um abraço fraterno e até a próxima coluna.