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28 de setembro, 2026 Carregando clima...
Direitos Humanos

A árdua missão de comunicar a Amazônia: Quem é por nós, jornalistas?

A Amazônia é vasta, complexa e o mundo inteiro cobra que suas histórias sejam contadas. Porém, a dura verdade é que não haverá quem defenda o território se os responsáveis por narrá-lo continuarem adoecendo ou caindo pelo caminho, seja pela violência, pela exaustão ou pelo mais absoluto abandono institucional

Contar histórias é, em sua essência, um ato de cuidado. Quem escolhe o jornalismo e a comunicação, especialmente no campo socioambiental, faz isso por acreditar que a informação pode proteger rios, florestas e, acima de tudo, pessoas. Mas e quando quem comunica se torna o alvo?

Falar sobre liberdade de expressão e a segurança de jornalistas na Amazônia é tocar em uma ferida que insiste em não fechar. É impossível não lembrar de Dom Phillips e Bruno Pereira, assassinados em junho de 2022.

Bruno Pereira durante expedição no Vale do Javari (foto: Amazônia Real)

Essa tragédia no Vale do Javari é o lembrete mais duro e extremo de que relatar os conflitos da nossa terra pode, literalmente, custar a vida.

Infelizmente, a insegurança não mora apenas nos extremos. Ela habita o nosso dia a dia, muitas vezes silenciando vozes fundamentais de maneira preventiva. Uma reportagem da Agência Pública desse mês de setembro de 2026 revelou, por exemplo, que o Tapajós de Fato, um importante site independente do Oeste do Pará, simplesmente deixou de cobrir as eleições locais deste ano por um motivo brutal e direto: o medo de morrer, após uma série de ameaças de violência direcionadas à equipe.

Agência Pública

Esse medo ganha novas formas e escalas no ambiente digital. Dados da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), publicados também nesse mês de setembro de 2026, mostraram que os ataques online à imprensa cresceram assustadores 67,3% apenas na segunda quinzena da campanha eleitoral. É uma violência que muitas vezes parece invisível para quem lê as notícias, mas que adoece e intimida quem está na linha de frente da apuração.

Às vezes, porém, a violência é física, estrutural e escancarada. Vimos isso acontecer no Festival de Parintins no final de junho de 2026.

Bumbódromo de Parintins iluminado durante o festival, cenário que deveria ser de celebração cultural, mas que foi palco de violência contra quem trabalhava (foto: divulgação na internet)

O jornalista Marcelo Rocha estava lá, trabalhando credenciado na cobertura oficial do evento, quando sofreu injúria racial e agressão. Após levar um tapa no rosto de uma mulher e ser chamado de “vagabundo” e “neguinho”, ele ainda foi derrubado por integrantes da segurança privada e retirado do local à força, carregado. Uma cena covarde que escancara a vulnerabilidade extrema do profissional ali presente apenas para exercer sua função.

Veja publicação de Marcelo no Instagram.

E as pressões não vêm apenas de quem quer ocultar uma notícia. Dentro das próprias redações ou na busca diária pelo sustento, enfrentamos lutas dolorosas e silenciosas. Uma pesquisa da Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro) com o apoio da FENAJ apresentada também no último dia 14/09, apontou como o assédio moral e a sobrecarga de trabalho ameaçam diretamente a saúde mental dos jornalistas, tolerando pressões absurdas pela simples, mas implacável, necessidade de sobreviver financeiramente.

Para o jornalismo independente, que tantas vezes é a única voz de territórios esquecidos, a asfixia também é econômica e algorítmica. Um exemplo triste que vem ocorrendo ao longo desse ano é o da Amazônia Real, agência de referência absoluta na região, que está com campanhas emergenciais de financiamento no Catarse ao se ver sem recursos para continuar suas operações.

Apoie o Amazônia Real.

Tudo isso acontece enquanto, como alertou a FENAJ no último mês de junho, plataformas digitais aplicam censuras invisíveis que limitam o alcance de veículos não comerciais.

Diante de um cenário tão sufocante, para onde corremos? É aqui que compartilho uma reflexão que talvez doa em muitos de nós: a solidão institucional. É profundamente desanimador olhar para entidades que deveriam ser nosso escudo, como os sindicatos da categoria e a própria FENAJ, e encontrar, na esmagadora maioria das vezes, apenas “notas de repúdio”.

O repúdio público tem o seu lugar, mas ele não paga honorários de advogado criminalista, não oferece amparo psicológico depois de um ataque, nem resguarda o jornalista ameaçado. Falta assistência real, pragmática e humana.

O sistema é, na sua essência, cruel com quem comunica. Ao contrário de categorias historicamente fortalecidas e blindadas por suas instituições de classe, como a medicina ou o direito, o jornalismo, especialmente na Amazônia, opera na margem, quase sem rede de proteção. E precisamos ter a honestidade de admitir que não há saída mágica ou simples para isso.

E cobrar que nós mesmos, já exaustos, encontremos formas de nos proteger sozinhos não basta. A mudança real só virá quando a sociedade, o Estado e as instituições que dizem nos representar entenderem que a integridade física e mental do comunicador é o alicerce básico da democracia, e não um dano colateral aceitável da profissão.

Aos meus colegas, o que posso oferecer hoje não é a falsa promessa de que tudo vai se resolver logo. Mas deixo aqui o reconhecimento da nossa dor, do nosso cansaço e da nossa inegável coragem. Que possamos, no meio desse cenário árido, não exigir tanta força de nós mesmos o tempo todo.

Se o sistema ainda nos nega o cuidado estrutural, que saibamos pelo menos validar o esgotamento uns dos outros, oferecendo escuta e honrando a vida de todos nós que dedicamos os dias a documentar e defender a nossa Amazônia.

No fim das contas, a urgência de denunciar as queimadas criminosas na floresta ou a seca dos rios esbarra em uma necessidade anterior a tudo isso: o nosso direito de existir e trabalhar sem medo.

A Amazônia é vasta, complexa e o mundo inteiro cobra que suas histórias sejam contadas. Porém, a dura verdade é que não haverá quem defenda o território se os responsáveis por narrá-lo continuarem adoecendo ou caindo pelo caminho, seja pela violência, pela exaustão ou pelo mais absoluto abandono institucional.

Neste texto, atenho-me a esses episódios de violência, sem nem mencionar a questão de direitos básicos trabalhistas. Isso é assunto para outro texto!

Um abraço fraterno e até a próxima coluna.

Sérgio de Andrade

Manauara, comunicador, especialista em comunicação socioambiental e atua no desenvolvimento de estratégias de visibilidade para projetos na região amazônica. Acumula mais de uma década de experiência na comunicação, incluindo jornalismo de televisão e rádio, e gestão de engajamento em organizações da sociobiodiversidade.