
As contribuições das mulheres para a ciência vão muito além de descobertas individuais. Elas estão presentes na formulação de novas perguntas, na sustentação dos sistemas científicos e na transformação da sociedade. Essa foi a principal mensagem de Luana Araújo, médica e líder de iniciativas de Tecnologias Avançadas para a Equidade em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein, durante a conferência “As grandes contribuições das mulheres para a ciência”, realizada na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Coordenada por Soraya Soubhi Smaili, vice-presidente da SBPC e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a atividade que lotou o auditório integrou a programação dedicada a SBPC Gênero, Diversidade e Equidade.
Ao longo da conferência, Luana Araújo defendeu que a presença feminina na ciência não deve ser analisada apenas pelo número de pesquisadoras ou pelos grandes nomes da história, mas também pela capacidade de ampliar perspectivas e incluir questões historicamente negligenciadas.
As nossas grandes contribuições vêm em todos os níveis. Elas vêm nas descobertas, nas transformações, na sustentação invisível e na própria comunidade que testa, questiona e devolve respostas para que a ciência seja revista,
afirmou.
Para a pesquisadora, a ciência produz respostas mais completas quando incorpora diferentes experiências humanas.
Temas relacionados à saúde feminina, como, por exemplo, endometriose, menopausa e saúde menstrual, permaneceram durante décadas à margem das prioridades científicas justamente pela ausência dessas perspectivas nos processos de pesquisa.
Araújo também propôs uma reflexão sobre como a história da ciência é construída. Para ela, listar grandes cientistas mulheres é relativamente simples, mas compreender por que algumas trajetórias são lembradas enquanto tantas outras permanecem invisíveis exige analisar os critérios que definem a memória científica.
Ela citou pesquisadoras como Marie Curie, Emmy Noether, Henrietta Leavitt, Barbara McClintock, Florence Nightingale, Grace Hopper, Margaret Hamilton e Katalin Karikó como exemplos de cientistas cujas descobertas transformaram áreas como física, matemática, astronomia, genética, saúde pública, computação, exploração espacial e biotecnologia.
No entanto, ressaltou que essas conquistas nunca foram individuais.
O que vira história não é apenas o que aconteceu. Existe um fluxo de conhecimento, uma infraestrutura invisível, uma interconectividade global e uma interdependência. O progresso científico é um esforço coletivo,
afirmou.
Para Araújo, reconhecer esse ecossistema também significa compreender o papel historicamente desempenhado por mulheres na sustentação da produção científica, muitas vezes por meio do trabalho doméstico, do cuidado familiar e da gestão cotidiana que permitiu a pesquisadores homens dedicarem-se integralmente à ciência, sem que esse trabalho fosse reconhecido.
Exclusão das mulheres da pesquisa científica
A médica abordou a exclusão histórica das mulheres dos ensaios clínicos ao relembrar que, em 1977, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, proibiu a participação de mulheres em idade fértil nas fases iniciais de estudos clínicos. “A medida foi adotada após a tragédia causada pela talidomida, medicamento utilizado contra enjoos na gravidez e que provocou graves malformações congênitas em milhares de crianças”, explicou.
Segundo a cientista, embora a preocupação fosse evitar novos casos, a consequência foi a exclusão sistemática das mulheres da produção do conhecimento científico. “A exclusão do ensaio clínico significa que eu escolho dizer que você não existe. Em vez de entender melhor essas condições fisiológicas, simplesmente se decidiu excluir metade da humanidade da pesquisa”, criticou.
Ela lembrou que apenas em 1986 o National Institutes of Health (NIH) iniciou uma política de incentivo à inclusão feminina nas pesquisas. A revogação oficial da norma da FDA ocorreu somente em 1993, tornando obrigatória a inclusão de mulheres e minorias em estudos financiados pelo governo norte-americano.
Mesmo assim, os avanços permanecem recentes. Somente em 2016 passou a ser exigida a apresentação de resultados estratificados por sexo, raça e etnia, inclusive em pesquisas pré-clínicas. Isso não significa que a fisiologia feminina esteja sendo estudada adequadamente. Significa apenas que hoje sabemos quantas mulheres participaram das pesquisas,
observou.
Para Luana Araújo, o maior desafio atual não é apenas ampliar o conhecimento existente, mas identificar aquilo que a ciência ainda não consegue perceber.
Como exemplo, citou a endometriose, condição que afeta milhões de mulheres e cujo diagnóstico demora, em média, cerca de dez anos.
Além da dor crônica, a doença está entre as principais causas de infertilidade feminina e compromete a qualidade de vida e a produtividade durante os anos mais ativos da vida,
concluiu.
Vivian Costa – Jornal da Ciência