🌿 Jornalismo Independente da Amazônia
16 de agosto, 2026 Carregando clima...
Meio Ambiente

Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo

Geógrafa alertou para o uso desenfreado dos agrotóxicos, especialmente na saúde de bebês, em conferência da SBPC

Pesquisadora da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), a geógrafa Larissa Bombardi ganhou relevância internacional ao realizar estudos que combinam análises cartográficas e dados para entender a presença dos agrotóxicos nas águas, na alimentação e na saúde humana.

Em sua fala, Larissa Bombardi apresentou o conceito de “Colonialismo Químico”, que é quando países do Norte Global, principalmente os europeus, exportam agrotóxicos perigosos para países do Sul Global – SBPC.

Em conferência na 78ª Reunião Anual da SBPC, a especialista alertou: o Brasil é o país que mais utiliza agrotóxicos no mundo e, entre os intoxicados, uma em cada 5 pessoas é uma criança.

Segundo dados de 2010 a 2019, mais de 27 mil afetados são bebês, e os efeitos da intoxicação são muito mais potencializados em um corpo infantil do que em um corpo adulto.

Bombardi também chamou a atenção para o crescimento da intoxicação em mulheres grávidas. Segundo a especialista, 70% dos casos de má-formação fetal são consequência dos agrotóxicos.

A especialista afirmou também que quando iniciou seus estudos, utilizando dados de 2010, a Amazônia mal aparecia. Hoje, a região vem crescendo nos índices de pessoas intoxicadas, principalmente crianças de 5 a 9 anos.

Estamos falando de um país que tem o Estatuto da Criança e do Adolescente – o que é isso, gente?

Bombardi ainda aproveitou para desmistificar uma afirmação errada, que diz que os agrotóxicos estão apenas em alimentos frescos. Ao contrário, substâncias estão aparecendo em muitos alimentos ultraprocessados, como bisnaguinhas, salgadinhos, cereais infantis e até em produtos lácteos para bebês. “Que miséria humana é essa que a gente está vivendo?”, questionou.

A pesquisadora alertou que, apesar de não ser a região onde mais se consomem agrotóxicos, a Amazônia é o território onde seu uso mais cresceu nos últimos anos. “Além do desmatamento ambiental, a Amazônia vive um desmatamento químico”.

Colonialismo Químico

Em sua fala, Larissa Bombardi apresentou o conceito de “Colonialismo Químico”, que é quando países do Norte Global, principalmente os europeus, exportam agrotóxicos perigosos para países do Sul Global – com destaque ao Brasil.

A União Europeia vende substâncias que ela não permite em seu próprio território. Dos 10 agrotóxicos mais vendidos, sete são proibidos lá. Porque são cancerígenos, provocam má-formação fetal ou danos ao meio ambiente.

A pesquisadora detalhou que em encontros internacionais chegou a questionar autoridades europeias sobre o fato delas venderem para outros países uma lógica que não desejam nem para eles mesmos, mas recebeu respostas isentando suas responsabilidades. “Eu ouvi que a União Europeia respeita a soberania dos países e comercializa apenas o que os países querem importar.”

A contradição é tão grande que a União Europeia tem as políticas mais restritivas para agrotóxicos. O território proibiu mais de 200 substâncias, enquanto legislações de outros países não chegaram a proibir 100. “A própria estrutura regulatória global é colonial por si só”, complementou.

Bombardi ressaltou, ainda, que há um monopólio nesse cenário: as quatro empresas que mais vendem sementes são as que controlam a comercialização e uso dos agrotóxicos.

Nesse panorama, é grave uma situação até submissa do Brasil. “O Brasil ocupa um lugar na economia mundial que não só nos subordina economicamente, mas em outras esferas, principalmente as humanas.”

Autora dos atlas sobre a geografia do uso de agrotóxicos no Brasil (2019 e 2021) e do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico (2023), Bombardi lamentou que o número de registros de agrotóxicos no Brasil não para de subir, principalmente nos últimos anos, mesmo no atual Governo Federal, que já se posicionou como progressista e contra as substâncias.

A especialista também criticou a Nova Lei dos Agrotóxicos, aprovada em 2023. Segundo ela, o País saiu de uma legislação que era focada na precaução para outra que trabalha essencialmente na contenção de riscos.

Apesar das problemáticas, Bombardi pondera que o País pode reverter a situação e encabeçar diretrizes mundiais. “O Brasil tem todos os elementos do mundo para liderar uma regulação global nova e contrária sobre o tema”, concluiu.

Confira a conferência na íntegra.

Jornal da Ciência – Rafael Revadam

Jose Gadelha

Jornalista, doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto na Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas (FACSA/UNIR), lotado no curso de Jornalismo, membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).