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16 de agosto, 2026 Carregando clima...
Meio Ambiente

Cientistas descobrem nova espécie de rã em florestas alagadas da Amazônia

Identificada no Oeste do Acre, a Adenomera Varcena revela uma diversidade oculta que só pôde ser encontrada por meio de análise de canto e DNA

Além de ampliar o conhecimento científico, a identificação de novas espécies de anfíbios neotropicais traz impacto direto em estratégias de conservação (foto: CBioClima/divulgação)

Os resultados foram publicados em maio na revista Ichthyology & Herpetology. Entre os autores do artigo estão o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Célio Haddad e o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Thiago Carvalho. Ambos integram a equipe do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

A descoberta ocorreu a partir de expedições realizadas na região do Alto Rio Juruá, no oeste do Acre, especialmente em fragmentos florestais associados aos rios Moa e Crôa, nas proximidades de Cruzeiro do Sul. Para confirmar que se tratava de uma nova rã, os pesquisadores cruzaram diferentes informações: análises de DNA, o som do canto, o formato do corpo (morfologia), dados sobre o ambiente onde ela vive e comparações com animais já preservados em coleções científicas.

O nome varcena faz referência justamente às florestas de várzea amazônicas, ecossistemas que alagam em determinadas épocas do ano, ambiente onde a rã foi encontrada. O artigo destaca que o uso desse tipo de hábitat representa uma descoberta a respeito do gênero Adenomera, que costuma habitar florestas de terra firme.

Fisicamente, a Adenomera varcena se diferencia das outras espécies pela falta de uma mancha escura na parte de baixo do antebraço. Além disso, seu canto de acasalamento é único: trata-se de um som curto, com ritmo bem lento e características sonoras muito específicas.

A descoberta dessa nova espécie de rã reforça o quanto a biodiversidade amazônica ainda é desconhecida, principalmente em relação a grupos de espécies morfologicamente semelhantes (diversidade críptica). O estudo também destaca que muitas linhagens de Adenomera ainda aguardam descrição formal e que novas pesquisas serão fundamentais para compreender melhor a diversificação desse grupo de anfíbios na Amazônia.

Como ainda não conhecemos em detalhe as exigências ecológicas da espécie e a sua história natural [período e modo reprodutivo], é difícil prever os impactos frente às mudanças climáticas, que podem alterar os regimes de inundação sazonal do ecossistema de florestas de várzea nessa região da Amazônia,

afirma Carvalho.

Como a espécie tem preferência por esse ecossistema específico, é possível sugerir que essas alterações na dinâmica das inundações possam influenciar, não sabemos até que ponto, o comportamento reprodutivo da espécie. Em um cenário de perda acelerada das áreas naturais, a descrição formal de uma nova espécie reforça o quanto ainda precisamos nos esforçar para avançar os estudos sobre a nossa biodiversidade. As espécies podem ser extintas localmente antes mesmo de se tornarem espécies formais, com a sua nomeação e descrição.

Nesse sentido, o professor Haddad alerta que, embora a descoberta de novos anfíbios seja frequente, a ciência trava uma verdadeira corrida contra o tempo diante da degradação ambiental para catalogar a biota brasileira com precisão.

Atualmente, o ritmo da destruição dos ecossistemas supera a capacidade de resposta dos estudos taxonômicos. Consequentemente, espécies ainda não descritas ficam de fora das listas de fauna ameaçada, permanecendo juridicamente e ambientalmente vulneráveis. Assim, o ato de descrever novas espécies atua como uma ferramenta que auxilia na proteção. Além disso, aprofundar o conhecimento sobre a real biodiversidade expande nossa compreensão sobre a evolução dos organismos, consolidando um pilar essencial tanto para a ciência pura quanto para as estratégias de conservação,

diz.

Além de ampliar o conhecimento científico sobre anfíbios neotropicais, a identificação de novas espécies possui impacto direto em estratégias de conservação. Sem o reconhecimento taxonômico correto, espécies raras ou restritas a determinados ambientes podem permanecer invisíveis para políticas ambientais e avaliações de risco de extinção.

A pesquisa envolveu colaboração entre instituições brasileiras e internacionais, reunindo cientistas ligados à UFMG, Unesp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Universidade do Equador (PUCE-Quito).

Agência Fapesp

* Com informações do CBioClima.
 

Jose Gadelha

Jornalista, doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto na Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas (FACSA/UNIR), lotado no curso de Jornalismo, membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).