Quando falamos sobre “comunicar um território”, é comum que a primeira imagem que venha à cabeça seja a de uma equipe em um escritório, desenhando estratégias, definindo públicos e aplicando teorias de comunicação. Mas, na prática, quando o território em questão é a Amazônia profunda e projetos de sociobiodiversidade, a comunicação vai além de meros conceitos.

É com essa provocação que chego a este espaço no ConectAmazônia. E para inaugurar nossa conversa, quero usar como exemplo um dos territórios onde atuo: a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, localizada na cidade de Manaus-AM.
Se você procurar dados oficiais sobre a região, pode acabar esbarrando em estatísticas que classificam os moradores dessa unidade de conservação em situação de insegurança alimentar. O motivo? Para as métricas tradicionais, como as do IBGE, famílias que vivem com uma renda financeira inferior a um salário mínimo entram automaticamente nessa categoria.
É uma matemática desenhada para a lógica urbana, baseada exclusivamente no dinheiro que circula no bolso. Mas basta pisar no território para perceber que a régua da cidade não serve para medir a realidade da floresta.
Na Puranga Conquista, os comunitários não vivem em insegurança alimentar. Eles vivem da sociobiodiversidade. Eles, pescam, plantam suas roças e colhem os frutos que a floresta dá. A alimentação é tão rica e fresca que é muito comum ver pessoas de fora visitarem o território e ficarem maravilhadas, sempre elogiando:
Nossa, como eu comi bem aqui!
A mesa é farta, sim, mas é fundamental que não romantizemos essa realidade. Tirar o sustento da floresta não é um conto de fadas; exige suor, trabalho duro, conhecimento ancestral, adaptação aos ciclos da natureza e muita luta. Não é fácil, mas é uma luta que garante dignidade e autonomia.

É justamente aí que entra o primeiro grande desafio de comunicar a sociobiodiversidade: traduzir esse contraste.
Como sou da Amazônia e comunico o meu próprio território, percebo o quanto a narrativa pode se distorcer quando não há uma vivência real. A colaboração com pesquisadores, jornalistas e profissionais que vêm de fora é muito bem-vinda e essencial para somarmos forças. O grande ponto de atenção é garantir que essa relação seja horizontal. O que não funciona é quando a comunicação acontece de forma isolada, em que dados são coletados e interpretados apenas pelas lentes de quem é de fora, o que muitas vezes resulta em relatos que descrevem as comunidades sob a ótica da extrema pobreza ou foco no isolamento, ignorando o modo de viver.
A comunicação territorial precisa ser uma ponte, uma troca constante. O olhar de quem chega de outros lugares para conhecer nossos projetos agrega muito, desde que não seja usado para julgar ou definir, de forma unilateral, a realidade de quem vive aqui.
Indígenas, ribeirinhos e povos tradicionais são protagonistas de suas próprias histórias. Eles são os detentores de tecnologias ancestrais, os verdadeiros guardiões da floresta em pé e os motores de uma economia que sustenta a vida, e não apenas o capital.
Chegar com uma câmera na mão para registrar carências não é comunicar um território. É importante ter o respeito e a sensibilidade de enxergar a potência e construir junto, para mostrar, por exemplo, que temas como restauração ecológica e produtiva já faz parte do DNA dessas comunidades.
Nesta coluna, meu compromisso é trazer essa comunicação de dentro para fora. Sem estereótipos, construindo parcerias e com a lente de quem vive e entende a verdadeira dinâmica da Amazônia.
Sejam muito bem-vindos e até a próxima coluna!