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23 de agosto, 2026 Carregando clima...
Meio Ambiente

Estudo mostra como o peso dos microplásticos determina sua dispersão no mar

Invisível a olho nu, o poluente escapa dos sistemas convencionais de tratamento de água, atinge animais marinhos e exige medidas da indústria e do poder público para ser contido

A densidade da partícula define o destino do resíduo: plásticos leves viajam longas distâncias pelos ventos, enquanto os pesados afundam e acumulam no leito marinho próximo a esgotos (foto: Agência Bori)

Cerca de 80% do plástico que entra no ambiente marinho vem de fontes terrestres. Quando esse material se fragmenta em partículas invisíveis a olho nu, a contenção se torna um desafio crônico, pois o microplástico consegue escapar até mesmo das estações de tratamento de esgoto convencionais.

Para rastrear o destino exato dessa contaminação, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram um modelo computacional capaz de simular a rota do resíduo microscópico ao longo do litoral fluminense. Os resultados do estudo, publicados na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, revelam que o peso da partícula é o fator decisivo para ditar quais regiões do oceano sofrerão maior impacto ambiental.

A ferramenta, que reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e pontos de lançamento de efluentes, mostra que partículas leves flutuam e são transportadas pelas correntes de superfície impulsionadas pela força dos ventos. Essa dinâmica permite que o material viaje longas distâncias e alcance áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras. Já as partículas de peso neutro se espalham junto à linha litorânea e acabam confinadas na circulação de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba. Por sua vez, o plástico denso afunda e se deposita no leito marinho, principalmente nas áreas de deságue de efluentes e de drenagem urbana.

A estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar sofre alterações durante fenômenos climáticos extremos. A passagem de frentes frias e a ocorrência de ressacas fortes geram ondas que revolvem o leito marinho. Esse impacto mecânico levanta os microplásticos pesados de volta à coluna de água, reacendendo o ciclo de poluição e transportando o material para novas áreas do oceano através das correntes costeiras.

O acúmulo contínuo traz impactos à fauna local. Animais que habitam o leito marinho, como crustáceos, frequentemente ingerem o material particulado depositado na areia. Esse processo insere o microplástico de forma direta na base da cadeia alimentar do ecossistema costeiro.

Rodrigo Amado Garcia Silva, pesquisador da UFF e um dos autores do estudo, explica que a principal diferença dos microplásticos para outros poluentes é a sua persistência no ambiente e a presença até mesmo no esgoto tratado.

A liberação de microplástico no ambiente é um problema global que só agora ganha luz. Ou a tecnologia de tratamento evolui para captar esse material, ou a própria indústria precisará mudar a composição de produtos que liberam essas partículas diariamente, como roupas e cosméticos,

alerta o cientista.

Segundo a equipe, o impacto do plástico no ambiente aquático não se restringe apenas ao microplástico, e o poder público precisa bloquear a chegada dos resíduos de maior tamanho, como as garrafas e tampinhas, aos rios e praias. A contenção desses itens é mais facilitada que a do microplástico e, nesse sentido, a instalação de ecobarreiras, a expansão da coleta de resíduos e a aplicação da logística reversa formam a linha de frente de defesa para garantir que o material descartado não se transforme em microplásticos que contaminarão o ambiente.

Fonte: Agência Bori

Jose Gadelha

Diretor Editorial do ConectAmazônia. Graduado em Jornalismo (União das Escolas Superiores de Rondônia - UNIRON), doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto no curso de Jornalismo (UNIR). Assessor de imprensa na Fiocruz Rondônia e membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).