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16 de agosto, 2026 Carregando clima...
Povos Indígenas

Congresso Nacional recebe lançamento do primeiro Manual de Jornalismo Indígena do Brasil

Obra inédita construída por indígenas jornalistas de diferentes povos propõe transformar a forma como a imprensa brasileira cobre os assuntos relacionados aos povos originários.

Construído por jornalistas indígenas, o manual combina a técnica jornalística com saberes tradicionais, oferecendo recomendações para reportagens, entrevistas, uso de terminologias, contextualização histórica e abordagem de temas variados (foto: divulgação).

A Câmara dos Deputados será palco, no próximo dia 10 de agosto, de um marco histórico para o jornalismo brasileiro. Das 10h às 12h, será lançado oficialmente o Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena, a primeira publicação do país elaborada por jornalistas indígenas para orientar a cobertura jornalística sobre os povos originários a partir de seus próprios conhecimentos, experiências e perspectivas.

Mais do que um manual de redação, a publicação representa um passo decisivo para a democratização da comunicação no Brasil. A obra reúne orientações práticas, conceitos, referências e princípios éticos para qualificar a cobertura jornalística, enfrentar estereótipos históricos e promover uma narrativa comprometida com a diversidade, os direitos humanos e a pluralidade dos mais de 300 povos indígenas que vivem no país.

O lançamento, que conta com o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), reunirá jornalistas, comunicadores, parlamentares, lideranças indígenas, pesquisadores, estudantes e representantes de organizações nacionais e internacionais que atuam na defesa dos direitos indígenas e da liberdade de imprensa.

Em um momento em que temas como crise climática, biodiversidade, demarcação de terras, justiça socioambiental e direitos dos povos originários ocupam o centro dos debates nacionais e internacionais, o Poranga Marandúa chega como uma ferramenta inédita para fortalecer uma cobertura mais ética, responsável e comprometida com a realidade indígena.

Uma mudança de paradigma na comunicação brasileira

Historicamente, os povos indígenas foram retratados pela imprensa a partir de olhares externos, frequentemente marcados por estereótipos, invisibilização, ausência de contexto e utilização de termos inadequados. O Manual de Jornalismo Indígena propõe uma ruptura com esse modelo.

Construído por jornalistas indígenas dos biomas do Brasil, o manual combina a técnica jornalística com os saberes tradicionais, oferecendo recomendações para reportagens, entrevistas, uso de terminologias, contextualização histórica e abordagem de temas como território, cultura, educação, saúde, política, meio ambiente e mudanças climáticas.

A publicação também reafirma o direito dos povos indígenas de narrar suas próprias histórias e amplia o diálogo entre as redações brasileiras e os profissionais indígenas que hoje atuam em veículos de comunicação em todo o país.

Para Luan Tremembé, um dos coordenadores da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), a publicação inaugura uma nova etapa para o jornalismo brasileiro. “O Poranga Marandúa representa um marco para o jornalismo brasileiro por ser o primeiro manual de redação construído por jornalistas indígenas. Para os povos indígenas, é um instrumento de fortalecimento da comunicação própria e do direito de contar nossas histórias a partir das nossas perspectivas. Para o jornalismo brasileiro, é um convite a ampliar seus referenciais e construir uma cobertura mais ética, plural e comprometida com a realidade dos povos indígenas.”

Uma construção coletiva

O manual é resultado de um amplo processo colaborativo entre organizações comprometidas com a valorização das narrativas indígenas, da comunicação democrática e da justiça socioambiental (foto: Caio Mota/Coletivo Proteja).

A coordenadora geral da Abrinjor, Luciene Kaxinawá, afirma que o manual também é um registro da diversidade e da memória do jornalismo indígena no Brasil.

A nossa articulação é composta por mais de 40 povos indígenas diferentes, pertencentes a todos os biomas do Brasil, e tem como grande força a presença das mulheres indígenas na comunicação. Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias. Também é uma homenagem aos nossos anciãos e anciãs, guardiões da memória, e aos comunicadores e comunicadoras indígenas que abriram caminhos muito antes de nós. O Poranga Marandúa nasce para honrar esse legado e garantir que as futuras gerações possam exercer um jornalismo comprometido com a verdade, com a ancestralidade e com o direito dos povos indígenas de narrar suas próprias histórias.

diz Luciene.

Jamille Mura que também fez parte do grupo de trabalho para elaboração do Manual comenta sobre o processo.”O manual foi uma construção e uma escrita coletiva, colaborativa dessa diversidade de jornalistas que compõem a Abrinjor. Foi gratificante estar debruçada em um material rico e basilar, com uma equipe competente, solidificando caminhos para um jornalismo ético e de qualidade, ou seja, nossa contribuição não é episódica, ela é para o desenvolvimento do jornalismo e da comunicação como um todo”. Afirma a jornalista.

Participam desta iniciativa:

  • Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (ABRINJOR) – Rede nacional que reúne cerca de 70 jornalistas e estudantes indígenas de diferentes povos e biomas brasileiros, fortalecendo a presença indígena nas redações e o protagonismo dos povos originários na produção de informação.
  • Nia Tero – Organização internacional sem fins lucrativos que atua no fortalecimento da autonomia dos povos indígenas na proteção de seus territórios, águas e ecossistemas.
  • Fundação Ford – Organização internacional sem fins lucrativos que financia programas com foco na democracia, redução do racismo e da pobreza.
  • A Proteja – Organização que há mais de uma década desenvolve estratégias de comunicação popular, fortalecimento institucional e articulação em rede junto a movimentos sociais e povos tradicionais.
  • Instituto Kaingáng (INKA) – Organização indígena administrada exclusivamente por mulheres Kaingang, dedicada à preservação da cultura, da língua e dos direitos do povo Kaingang.
  • Imaginable Futures – Organização filantrópica global que investe em iniciativas voltadas à transformação da educação e à promoção da equidade social em diferentes países.

Comunicação mais plural, democrática e representativa

O lançamento do Poranga Marandúa no Congresso Nacional simboliza o reconhecimento da presença indígena como protagonista na produção do conhecimento jornalístico e reforça a importância da diversidade dentro das redações brasileiras.

Mais do que orientar o uso de termos adequados, o manual propõe uma transformação estrutural na forma como o jornalismo compreende e narra os povos indígenas, contribuindo para uma imprensa mais plural, inclusiva e comprometida com a democracia.

Federação Nacional de Jornalistas – FENAJ

Jose Gadelha

Jornalista, doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto na Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas (FACSA/UNIR), lotado no curso de Jornalismo, membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).