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16 de setembro, 2026 Carregando clima...
Povos Indígenas

Podcast investiga impacto da BR-174 na Amazônia e a resistência do povo Waimiri-Atroari

Fugindo do formato tradicional de estúdio, a equipe realizou cinco expedições de campo, totalizando mais de 24 dias na mata. O resultado é um acervo com mais de 300 áudios que colocam o ouvinte no centro de toda a ação. Para finalização das etapas finais de produção, o projeto abre campanha de financiamento coletivo

O avanço de rodovias sobre a floresta tropical gera impactos complexos para a biodiversidade e para os povos originários. Para documentar essa realidade de perto, o podcast documental Sinal de Vida anuncia a produção de sua segunda temporada, gravada integralmente na Amazônia. 

A série em áudio acompanha uma investigação científica sobre as consequências da BR-174, estrada que liga Manaus (AM) a Boa Vista (RR), dentro e fora do território Waimiri-Atroari.

Equipe do podcast Sinal de Vida com Sawa Atroari (ao centro, de amarelo) lideranca indígena Waimiri-Atroari, e a pesquisadora Juliana Martins (de lilás, à direita de Sawa)

Fugindo do formato tradicional de estúdio, a equipe realizou cinco expedições de campo, totalizando mais de 24 dias na mata. O resultado é um acervo com mais de 300 áudios que colocam o ouvinte no centro da ação: desde os sons da instalação de armadilhas fotográficas até o momento exato do fechamento noturno da rodovia, passando por entrevistas com caminhoneiros, lideranças indígenas e mergulhos em igarapés.

BR-174 e a ciência em campo

A BR-174 é o foco central da investigação científica apresentada no podcast, carregando um histórico complexo na Amazônia. Construída entre 1967 e 1977, durante o regime militar, a obra foi inserida no Plano de Integração Nacional e rasgou o território tradicional indígena, trazendo severas consequências ambientais e sociais. 

Hoje, como medida de proteção e segurança referendada pela Justiça, o trecho da rodovia que corta a reserva é rigorosamente fechado ao tráfego de veículos durante a noite, das 18h às 6h. 

Essa restrição é fundamental não apenas para a segurança da comunidade local, mas para impedir o atropelamento de animais de hábito noturno.

É exatamente esse cenário que norteia o trabalho documentado pela série. A temporada acompanha a pesquisa de campo da bióloga Juliana Martins, que instalou câmeras dentro e fora da terra indígena. 

Bióloga Juliana Martins manuseando equipamento de captura de imagem

Com uma abordagem que une biologia e antropologia, o estudo coleta dados para comparar a presença de animais silvestres nessas diferentes áreas. Os objetivos da pesquisa é compreender se o bloqueio noturno da rodovia, gerenciado pelos indígenas, gera um impacto direto e positivo tanto na conservação da fauna e da biodiversidade amazônica, como na geração de autonomia territorial desse povo. 

A resistência Waimiri-Atroari

O impacto da abertura da BR-174 foi devastador para os Waimiri-Atroari, que se autodenominam Kinja. O contato forçado com trabalhadores e militares introduziu doenças, violência armada e resultou na destruição de aldeias. 

Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), estima-se que 2.650 indígenas dessa etnia foram mortos durante a construção da rodovia na década de 1970. A violência sistêmica e as epidemias quase dizimaram o povo, que reduziu sua população de mais de 3.000 pessoas a cerca de 300 sobreviventes na época.

Apesar desse passado de quase completo extermínio, o podcast retrata o atual cenário de protagonismo dos Kinja na reconstrução de sua população e na defesa de suas terras. Durante as gravações, a equipe do Sinal de Vida construiu laços de amizade e confiança com Sawa, liderança indígena que co-coordenou a pesquisa. 

Equipe do podcast, juntamente com a pesquisadora e liderança indígena selecionando imagens

Através da condução emocional da história, o programa documenta visitas a locais sagrados e a imensa importância do Maryba, uma festa tradicional que dura três dias ininterruptos. É por meio de celebrações como essa que os Waimiri-Atroari mantêm viva a sua história oral, articulam alianças políticas entre as aldeias e repassam o conhecimento de seus antepassados para as novas gerações.

Campanha de financiamento coletivo

Para viabilizar as etapas finais da produção, o projeto abriu um financiamento coletivo (como ilustrado na imagem abaixo). A arrecadação pagará o desenvolvimento do site, trilha sonora, identidade visual, divulgação, roteiristas e editores.

A edição ainda não aconteceu, pois estamos na etapa de roteirização. Tudo para trazer a humanidade por trás dessa pesquisa e mostrar que conservação da biodiversidade vai muito além das espécies, mas da cultura, história e disputa por terras,

destaca Lucas Andrade, um dos idealizadores do Podcast Sinal de Vida.

Apoios podem ser feitos em catarse.com.br/sinaldevidapodcast ou via pix: [email protected]

Sobre o Podcast Sinal de Vida

Conduzido pelos biólogos e comunicadores da ciência Lucas Andrade, Gabriela Longo e Amanda Guedes, o Sinal de Vida é um podcast narrativo que mergulha em viagens de campo para conectar pesquisas científicas às vidas cotidianas.

A primeira temporada documentou a busca inédita pela raia-chita na Ilha Anchieta (SP) que resultou em um registro nunca antes feito pela ciência brasileira. Saiba mais sobre o podcast Sinal de Vida clicando aqui.

Fonte: Sérgio de Andrade/fotos: reprodução

Jose Gadelha

Diretor Editorial do ConectAmazônia. Graduado em Jornalismo (União das Escolas Superiores de Rondônia - UNIRON), doutor em Informação e Comunicação em Saúde (ICICT/Fiocruz), mestre em Letras (Universidade Federal de Rondônia - UNIR), professor substituto no curso de Jornalismo (UNIR). Assessor de imprensa na Fiocruz Rondônia e membro da Academia Rondoniense de Letras, Ciências e Artes de Rondônia (ARL).